De viva voz (os belgas)

Graças à generosidade da minha amiga Miss C., fiquei a conhecer o belíssimo trabalho dos jovens de Antuérpia Fien Muller e Hannes van Severen. Não me interessa minimamente se são, ou não, mais um casalinho maravilha do dézaine, a transpirar coolness e todas essas coisas profundamente entediantes. Ela é fotógrafa, ele é artista (e vale a pena espreitar o que fazia antes de a conhecer), e cruzaram-se neste furniture project que é tão bom, que quase inaugura uma nova secção no Playtime, intitulada “prá desgraça”. Este loveseat contemporâneo que pusemos aí em baixo diz tudo. Claro que falta ainda ver as peças de viva voz, mas assim, caladinhas, silenciosas, são uma maravilha. Imaginamos o resto. O minimal reinventado, mesmo, ou o ornamento que está quase sem estar, e portanto sem pesar.

(parece que também vale a pena visitar a galeria da Sra. Traan onde estão outras peças, e outros objectos e sujeitos. Mais um motivo para levar a Bélgica a sério, malgré les blagues. Outros, que também nos importam, estão aqui)

 

Peixinhos

Há uns dias que somos cinco lá em casa. Eu, os dois brotos, e um casal de peixes num aquário rectangular. Desconhecemos os sexos das criaturas subaquáticas, mas é indiscutível que são um casal. É esta tendência tão humana que temos para pôr as coisas aos pares: pessoas, bichos, sapatos, brincos.

S. e G. decidiram que os peixinhos são um casal hetero. Ao maior, um exemplar malhado de escamas prateadas e pretas, G. pôs o nome de “Edgar”. À mais pequena, uma fêmea com barbatanas serpenteantes de sereia dengosa, S. baptizou de “Madalena”. Depois chegou o mano, autoritário, e rebaptizou-a de “Esmeralda”.

Concordámos que ficaria Madalena Esmeralda, que é mau, mas podia ser bem pior.

Depois concluimos que o Edgar não podia ser menos, e ficar com um só nome. Ficou Edgar Rodrigues, ou Rodriguez, confesso que ainda não percebi.

Sentei-me à frente do aquário, a dança dos peixes é hipnótica e relaxa “cantidad”. Lembrei-me de Edgar G. Robinson, e imaginei como ficaria o peixinho de charuto. Pensei na Esmeralda de Notre Dame, e constatei que as ciganas às vezes parecem sereias. Com peixinhos assim, quem é que precisa de oceanos para nadar?

Paper Cup

 

Já tinha reparado no novo look das embalagens de Haagen Dazs (aquele nome fantástico tornado ainda mais fantástico por não querer dizer rigorosamente nada) embora no frigorífico lá de casa o chocolate fudge brownie, da concorrência das vaquinhas sustentáveis, bata claramente o dulce de leche (com evocações argentinas, che!)

Não investiguei as razões que levaram a marca de gelados a desembaraçar-se de boa parte das filigranas douradas que preenchiam as suas embalagens, mas agradeci. Mais levezinho é quase sempre melhor. E com a mesma quantidade de açúcar, por favor.

Agora, em exclusivo para o mercado japonês, imagino, associam-se ao estúdio nendo (que continua em alta e é capa da Damn) com esta vela de aromaterapia inspirada na simplicidade dos copinhos de papel.

Claro que não se esqueceram do toque de Midas. O dourado está lá: no interior resplandescente. Mas por fora é branca como a baunilha (é esse o cheiro) e simula o gelado que se derrete com o calor. Quando se apaga e vela e se fecha a tampa, a colherzinha trademark (desta vez de cerâmica) actua como difusor de aroma. Gostamos dos contrastes e da maneira como os opostos se atraem até se confundirem. Derretemo-nos com o sight e imaginamos o smell. E isso é naice.

Karimoku 12

Chegaram há bem pouco estas imagens da magnífica exposição dos japoneses da Karimoku em Milão.

São o sonho onde queremos acordar.

E, segundo o press release que as acompanhava, uma das exposições mais aclamadas de Milão.

A belíssima exposição do ano passado já o anunciara. A colecção deste ano, e os protótipos que se estrearam finalmente, confirmam-no.

Queria muito ver por cá estas maravilhas de Oriente, interceptadas pelo talento da fina flor do novo design europeu (o galego Tomás Alonso, os suecos TAF, os suíços Big Game, a dupla holandesa Scholten-Baijings, e – e não é uma anedota- o belga Sylvain Willenz, que não esquecemos desde aqui). É uma mão-cheia de stars, mas das verdadeiras, que brilham sem o mínimo esforço.

A apresentação foi num apartamento-galeria impossibly cool (e pensámos seriamente em escavacar as paredes lá de casa), como se pode ver aí em cima.

As maravilhas são estas – entre outras - como se pode ver aqui em baixo (a mesa de Tomás Alonso, o banco tosco, entre o triângulo e o círculo, dos TAF e as convenientes bins de Scholten & Baijings)

Belo Par

Image

A crise, a crise, e ultimamente o meu furor consumista, naturalmente pronunciado, tem-se revelado muito comedido. Fico-me pelas “compras à janela” (se estiver para aí virada).

Mas um dia não são dias de maneira que me decidi a substituir os meus velhos ténis por uns novos (nos velhos, só o swoosh se mantinha luzidio… pela força dos anos tinham-se transformado nuns Nike “peeptoe”, onde nem já a patine tinha graça). Depois, vi numa revista uns óculos dobráveis e declarei-os “não s’aguenta”.

Regressei da hora do almoço plenamente realizada, com uns ténis novos nos pés e uns óculos novos aos solavancos dentro da carteira (o tempo desacompanha).

Dois objectos, singulares com um nome no plural (porque um sapato não funciona sem o outro, nem uma lente isolada, a menos que estejamos coxos, ou sejamos zarolhos). Ou não? Não. Claramente não.

Para o rapazinho da loja de desporto, o “téni” tinha de ser um 7 americano, medindo 24,5cm, e por isso tinha trazido este outro “téni” para eu ver a diferença, do 39 para o 40. Agradecida. E para a menina da loja de acessórios, a várias ruas de distância, num outro ”estabelecimento comercial” de Lisboa, a grande questão era saber se eu ia levar mais qualquer coisa, ou só “o óculo” (cujas lentes limpava afanosamente). Que amores (eram todos boa gente).

Assim, “o téni”, “o óculo”. Que delícia. Que belo par.

(na imagem, Luso Nike, Joana Vasconcelos, 2006)

Os Pinguins Também Falam Francês

S. fascinado a ver “A Marcha dos Pinguins”. Não descola os olhos do ecrã. Sorri quando sente empatia (digo eu) franze o sobrolho quando estranha alguma coisa (deduzo também). Nos intervalos, mantém a boca aberta, doce pasmo.

O filme, para quem não sabe ou não viu, é narrado (ou melhor “acted”) em francês. Há uma voz masculina, que faz de pinguim-pai. Uma voz feminina que faz de pinguim-mãe. As duas muito amorosas e líricas. Felizmente os pinguins não abrem a boca, como naqueles filmes irritantes do “tempo em que os animais falavam”. Os pinguins não abrem a boca, mas nós ouvimos o que dizem, como se fossem pensamentos em voz alta (baixa) ou sonhos falados.

Depois da amorosa dança, a mãe põe o ovo, deixa-o com o pai e vai à vida: parte em direcção ao mar para se alimentar. E passado dois meses regressa, para reencontrar o seu broto.

O “excitamento” de S. acompanha o crescendo saudoso da mãe pinguim ao regressar a casa. Finalmente, a casca abre-se e sai o pequeno pinguim. Que pia, é lógico, mas não fala.

Aí, S. inquieta-se: “Mãe, os pinguins bebés também vão falar francês?”

Entre algas e nuvens (Works)

Cover photo da nova monographia dos Bouroullec publicada pela Phaidon (escrevi monographia e vou deixar, em “desacordo ortográfico”, como a livreira de um dos melhores blogues da nação) .  A capa, com uma sucinta alga em solo, é um mimo (e a contracapa outro: uma evocação de ”Cloud”)  e o que está lá dentro, poético. Depois de folhear virtualmente algumas páginas livro, espero com serenidade que chegue às livrarias em Maio.

As imagens (de objectos, desenhos e maquettes, muitas delas inéditas) têm a qualidade, o sossego e a subtileza a que os Bouroullec nos habituaram quando se deixam fotografar (presumindo que eles estão nos objectos que desenham). Olhar para elas é meditar de olhos abertos.

O livro inclui uma entrevista cruzada com Rolf Fehlbaum (o Sr. Vitra), Eugenio Perazza (o Sr. Magis), Didier Krentowski (o Sr. Kreo) e Alice Rawsthorn (a Sra. design critic). E o catálogo completo de 15 anos de colaboração fraternal. Que delícia.

 

 

Colherada

Graças a Mme Sempé (ela é muito boa), fiquei hoje a saber que “cuiller” é sinónimo de “cuillère”.

E depois, também me lembrei que há design que se come com os olhos (ultimamente je suis très “olhos”) mas não só.

Escreve a designer, na sua introdução a esta colher para risotto (e outros alimentos de textura semelhante) “J’ai voulu une cuiller subtile et ronde, simple et gaie comme devrait l’être le plaisir de manger un risotto”.

Et voilá! Está feito, um objet bijou belíssimo e rigoroso.

A colher de Inga, que tem traços, segundo a autora, das colheres de chá dinamarquesas da sua infância, e também de colheres de gelado francesas, venceu no ano passado o concurso “Design a Spoon” organizado pela Domus, para celebrar o 60º aniversário do livro de culinária “Il Cucchiaio d’Argento”. É produzida pela Alessi, como aquela outra colher de Castiglioni, para rapar frascos de compota insolentes, que amamos.

De olhos fechados (Fabrica meets Villa Necchi Campiglio)

Os previews da Semana do Design de Milão já nem são pre. São views categóricos. Estamos a uma semana do Salone, mas já está tudo na Net. À conveniente distância de um clique, é certo. Mas na Net. Sem canseiras nem travessias da cidade de lés a lés. A Net ajuda em tanta coisa. Mas estraga tanta coisa.

Destroi o mistério. Substitui-o pelo tédio. O tédio de vermos tudo antes de ver.

Claro que ver uma coisa na Net não é verdadeiramente vê-la. E claro que depois há coisas que se vêem de olhos fechados, ou se vêem escutando, ou se vêem andando.

Como tudo o que se vê na esplendorosa Villa Necchi, onde havemos de voltar. Quem lá esteve, e estará, durante o Salone deste ano, são os meninos e meninas da Fabrica, que desenharam uma série de peças contemporâneas (mobiliário e moda) inspirados na fabulosa arquitectura da casa dos anos 30.  Muitas peças foram produzidas com o know-how das aziende italianas (como a Alessi) e isso torna o projecto ainda mais apetecível. A exposição, com curadoria de Sam Baron, Matteo Schubert e Francesca  Serrazanetti está aberta até 8 de Maio.

E, maravilha, não encontrámos fotografias na Net! Só este desenho, teaser sem tédio, e ainda bem.

Mas é para ir sem medo, de olhos fechados.

Desenhar um ovo estrelado

Há quem tenha jeitinho para desenho. Há quem não tenha o mínimo. Eu sinto-me um bocadinho assim quando pego num lápis: imagino imensas coisas, depois não sai nada do que quero. Na cabeça, tudo é tão mais bonito. É como se o meu cérebro, que faz imagens, e a minha mão, que as tenta passar para o papel, não se falassem. É mesmo como não saber fazer um ovo estrelado, nem desenhado.

Foi por isso que quando vi este livro na loja de um museu de Madrid soube que tinha de levá-lo para casa. Para o meu filho G., sim. Mas claramente para mim. É o professor de educação visual que nunca tive. E folheia-se. Tudo é bonito: o papel, as ilustrações, a caligrafia, os textos,  os desafios criativos que coloca. Passo a passo. Simple and smart. Com direcção e liberdade. É uma obra da ilustradora Marion Deuchars, de que é impossível não ficar fã.

Mais um não s’aguenta que não resisti a fotografar no chão da sala. Mas quem quiser ver a coisa como deve ser pode espreitar aqui.


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